Um breve esboço de mapeamento das novas “esquerdas” não-partidárias no mundo

TEXTO AINDA EM RACUNHO (INACABADO)

Introdução

Os grupos e tendências da atual “esquerda” não-partidária mundial são muitos, variados e diversificados. Eles não podem ser, com realismo — e não devem ser, com ou sem realismo, isto é, não podemos permitir que sejam —  simplesmente confundidos um com os outros.Ou estaremos fazendo apenas uma campanha de desinformação, que pode ter efeitos bastante danosos para todos, à esquerda e à direita, conforme procurei esclarecer num outro artigo (O perigo da hospedagem do opressor e da profecia auto-realizadora).

É preciso que as divergências estejam sempre claras e atuando em debate, que a própria tensão da razão coletiva (isto é, do debate coletivo entre os diferentes grupos e tendências, os mantenha unidos em força coletiva, sempre com respeito às pequenas decisões majoritárias provisórias que forem sendo difusamente tomadas no percurso das mobilizações. É preciso evitar sempre, e com todo empenho, que a força massificante irracional (que em certos momentos naturalmente tenderá a tomar a dianteira) sobrepuja de maneira definitiva e dominante o cultivo da razão coletiva.

 

Terceiromundistas (e Bolivaristas)

Começo por um grupo ou tendência que não está entre os que se enquadram melhor no que o títuo do artigo aponta: o terceiromundismo e o bolivarismo. essa tendência não é propriamente ligada a propostas extrapartidárias e independentes de qualquer atuação pela via governamental. Mas ela tende a fomentar em certa medida (ainda que bastante limitada) a nova linhagem das tendências políticas apartidárias no mundo. Isto por causa de um aspecto constantemente presente no terceiromundismo, bolivarista ou não: a valorização da sociedade civil organizada pelo marxismo gramsciano.

Não obstante, é preciso muita cautela na consideração de que esse incentivo à participação popular organizada típico do terceiromundismo (e em especial do bolivarista) vá conduza sempre a uma fomentação dessa nova linhagem política apartidária, porque a participação popular em posturas como a bolivarista tende a seguir tutelada pelo Estado, e além disso tende a permanecer uma proposta de peso secundário em fase do que costuma ser caracterizado pelos bolivaristas como o principal: a luta contra o imperialismo capitalista em nível internacional.

Vejamos.

Simon Bolívar (1813-1814) foi o segundo presidente da Venezuela (o nome não tem nada a ver com a Bolívia). Era um militar ligado à aristocracia, e lutou contra a dominação espanhola sobre a América do Sul, fundando uma união desses países sul-americanos. Marx chegou a escrever sobre ele uma carta (para Engels, em 1858) e ainda antes um artigo crítico-biográfico (em 1857) com o título “Simón Bolívar”, para a New American Cyclopaedia, a pedido do jornal New York Tribune. Em ambos os textos, Marrx desenvolve uma má (muito má, aliás) imagem desse presidente venezuelano. Isso no entanto não impediu movimentos político-partidários de esquerda socialista marxista de construirem e difundirem pelo mundo, em torno de Simón Bolívar, todo um mito ilusório, mas politicamente útil, segundo o qual Bolívar teria sido “socialista”. Peça chave na construção desse mito foi o presidente venezuelano Hugo Chaves.

O Bolivarismo apregoa basicamente união de todos os países da América do Sul para se alinharem em luta político-econômica contra os países exploradores que os dominam por exemplo através do endividamento. Em conjunto com isto, o bolivarismo tende a promover o populismo e (numa linha que lembra a de Gramsci) a crianção de órgãos de participação popular fomentando a organização da sociedade civil… só que sob a tutela do governo (uma liberdade maior e um espaço maior para as interferências do ativismo político popular, na forma de organizações da sociedade civil, sobre as decisões de interesse do Estado).

Trata-se de uma liberdade, conforme já dito, “sob tutela”. Isto é, realizada mediante uma organização da sociedade civil parcialmente por iniciativa do próprio governo, e fiscalizada por ele (o que significa também uma participação com certos limites, que as lideranças bolivarianas tendem a justificar com base na ideia de que é preciso, de certo modo, filtrar a participação popular para limpá-la de infiltrações ideológicas dirigidas pelo interesse do alto capital.

A marca fundamental do bolivarianismo, paralelamente a essa valorização da participação popular (ainda que governamentalmente tutelada), está muito mais do que isso em outra parte: está no transporte da noção marxiana de “luta de classes” para o plano internacional — coisa que na verdade já está plena e firmemente presente no próprio Marx, mas que aqui recebe, digamos assim, um novo colorido.

Diferentemente das noções originais de Marx a respeito, o bolivarianismo traduz esse nível internacional da luta de classes como uma luta entre países capitalistas e exploradores dominantes, e países explorados e dominados, sem operar com a mesma firmeza e clareza a transversalidade que Marx operava nisto, rompendo com fronteiras nacionais. Neste sentido, um marxismo internacionalista de perfil trotskista, que fosse diretamente combinado com a postura gramsciana de valorização da sociedade civil organizada (e talvez com o tempero de uma “democracia comunista” tal como a presente em Luckács), teria provavelmente um efeito mais próximo daquilo que será o principal assunto neste artigo — a nova linhagem do ativismo político não partidário e não-governamental. O Bolivarianismo, tão difundido hoje principalmente graças à sua propaganda por Hugo Chaves, carrega ainda, pelo contrário, o traço forte de um nacionalismo como que “ampliado” para a forma mais geral de um “latinismo” que deve se unir contra a opressão “estrangeira”. Há em todo o mundo países governados por partidos de perfil “bolivarista”.

Veremos que essa nova linhagem da esquerda de que vamos falar, contudo, está muito mais inspirada em valores caracteristicamente anarquistas do que em algum marxismo gramsciano. este sentido, o bolivarismo se apresenta, em sentido inverso, como um movimento “na contra-mão”. Ou pelo menos tão lento, em uma superavenida de altíssima velocidade, que é praticamente como se estivesse na contramão, e correndo o risco de gerar gravíssimos acidentes, inclusive.

Não obstante, o bolivarismo não deixa de seguir uma tendência internacional que já não está necessariamente tão apegada ao partidarismo políticos: o Terceiromundismo, em sentido mais geral (sobre o qual se encontra muito material online em espanhol, sob o título de “tercermundismo”.

O terceiromundismo apregoa a união internacional dos países de terceiro mundo (subdesenvolvidos ou “emergentes”) em luta contra o domínio de países capitalistas avançados, pensando esss países exploradores e a união dos países explorados no quadro  do conceito marxiano de “luta de classes”. Contudo na mesma medida em que tende a defender maior participação popular, e na medida em que o faça pensando essa participação efetivamente autônoma,  independente do poder oficial do Estado, tende também a pensar mais nos termos de uma união de nações (povos, com suas culturas) exploradas do que nos de uma união dos governos  Estados por meio de seus governos.

O mais comum, porém, é de fato o caso do terceiromundismo fomentado e conduzido por partidos políticos no poder ou visando o poder.

Avancemos então, a partir daqui, para o traçado em esboço daquilo que tem realmente um perfil mais contemporâneo, e que tende efetivamente a dominar a médio e longo prazo as atividades políticas mundiais à “esquerda”.

 

Autonomistas

Autonomistas defendem o controle popular das instituições e sua recriação desalienada rumo à autonomização dos grupos e indivíduos. Não podem ser confundidos simplesmente com anarquistas, embora haja de fato proximidade entre eles. A tendência foi fundada pelo filósofo Cornélius Castoriadis, ex-trotskista (de uma linhagem mais radical em relação ao internacionalismo e à noção de “revolução permanente”) e depois ex-membro do grupo Socialismo ou barbárie (de defesa radical da autogestão em todos os níveis e da rev0lução permanente, aproximando trotskismo e anarquismo).

Castoriadis deslocou-se depois para o freud-marxismo, do qual foi provavelmente o representante filosófico mais profundo e consistente, e o mais atento aos problemas ligados às atuais transformações tecnológicas do mundo — embora os freud-marxistas mais famosos tenham sido Marcuse, Erich Fromm e o quase anarquista Wilhelm Reich.

O autonomismo tem inspiração no modelo da democracia direta de Atenas, depurando esse modelo dos defeitos não-democráticos que se agregavam a ele, e procurando atualizá-lo em conexão com a história dos movimentos políticos operários mundiais.

Castoriadis chegou a vir pessoalmente ao Brasil para um ciclo de palestras públicas, a convite de um governador petista da região Sul chamado Olívio Dutra, e sua influência conduziu à formação de grupos pequenos mas influentes no Brasil que se orientam moderadamente nessa direção, retomando também em combinação com isto algo de Gramsci, e acentuando a importância da sociedade civil organizada — mas esses autonomista brasileiros moderadíssimos, apesar de conseguirem difundir sua influência em outros grupos, são, frequentemente, identificados como “os radicais” em meio a uma militância ainda partidária. No resto do mundo, os autonomistas são muito mais frequentemente um movimento que se desenvolve fora dos meios partidários e inclusive em oposição à via partidária de atuação.

 

Neoanarquistas

Anarquistas (“neo” ou não), sempre fortemente ligados a questionamentos e defesa de valores no campo ético, lutam incessantemente contra a fixação oficial ou não de qualquer instância de poder institucionalizada ou dominante, política, armada, ideológica ou econômica, e pelo avanço incessante e incessantemente cultivado de formas de organização no sentido oposto de qualquer fixação de poder desse tipo.

Os anarquistas constituem na verdade um movimento bastante antigo (mais antigo que o comunismo marxista) e bastante variado, que se manteve, por assim dizer, hibernando “à sombra” desde a ascensão do marxismo leninista e stalinista, e que agora começa a retornar em inúmeras pequenas variantes reformuladas “neoanárquicas”, e que tende a ceder sua experiência histórica de militância em apoio aos novos grupos e tendências que estão surgindo.

No campo político-filosófico, o fundador da teoria anarquista foi o “mutualista” Pierre-Joseph Proudhon, contemporâneo (e ao mesmo tempo modelo inspirador e rival de Marx, que era pouco mais de uma década mais jovem). Proudhon teve um antecedente mais ou menos próximo no socialista utópico William Godwin, e colheu criticamente influências seletivas também de Fourier e principalmente de Saint-Simon.

Mas Proudhon estava procurando exprimir e organizar em teoria o pensamento de uma tendência já existente e atuante nos movimentos políticos operários, e colheu suas principais influências na experiência ativista dos grupos que seguiam essa tendência, em especial na militância dos micro e pequenos artesãos pobres da cidade de Lyon, na França, em luta contra sua pesada exploração pelo capitalismo comercial e financeiro.

Depois de Proudhon, a orientação teórica anarquista se dividiu em diversas correntes das quais se destacam: a de seu amigo pessoal, o nihilista revolucionário Bakunin; a dos anarco-sindicalistas (que foi a corrente mais influente na história do Brasil, entre todas essas do anarquismo);  a do cooperativismo naturalista de Kropotkin; e a do anarco-individualista radical, existencialista cético (e pré-nietzscheano) Max Stirner. E há também um anarquismo de perfil mais ecológico e naturalista (na verdade neste sentido próximo ao de Kropotkin), inspirado no ecologista Henri-David Thoreau (que tem alguma influência sobre os valores de grupos como o Green Peace).

Bem mais tarde, já no século XX, surgiu ao lado destas uma nova corrente anarquista dotada de uma filosofia fortemente relativista,  inspirada no teórico do conhecimento e filósofo da ciência Paul K. Feyerabend e em seu anarquismo epistemológico — que exerce uma influência submersa, pouco explicitada mas fortemente presente, em movimentos tendências anarquistas que hoje atuam muito intimamente ligadas à questão do conhecimento e da popularização de tecnologias avançadas e alternativas.

 

Cognitivistas e voluntários educacionais

As tendências neoanarquistas de tipo cognitivista, isto é, as que supervalorizam o conhecimento ou cognição, as questões ecucadionais e ligadas a livre-informação e ao aprendizado, acabaram por inspirar ou também grupos politicamente bastante discretos, mas de forte presença, com posicionamentos que poucas vezes identificamos como ligados a valores políticos, como por exemplo muitos dos que atuam na organização, manutenção e desenvolvimento de serviços públicos, como a Wikipédia. Entretanto, esses valores ético-políticos de fato estão claramente presentes, nos princípios que norteiam o serviço.

Trata-se (no caso da Wikipédia e de outras coisas desse mesmo gênero, de uma operação de desconstrução do modo como são instituídos os saberes em uma enciclopédia normal (que se pauta na autoridade das fontes e na herarquia entre quem fornece e quem recebe a informação). Desconstrução que se faz propondo, em sentido oposto, o gerenciamento coletivo e autodidata da enciclopésia, por meio da troca e correção mútua e livre de informações.

Existe aí, nesta como em outras atuações do gênero no mundo, uma espécie de neoiluminismo espontaneísta ultra-radical, que leva até os extremos mais radicais duas posturas anarquistas muito típicas: o espontaneísmo (as pessoas não devem ser conduzidas na direção das transformações desejadas, devem apenas aprender elas próprias, o quanto são desejáveis essas transformações, para então se empenharem nelas por si mesmas, espontaneamente); e o autodidatismo coletivo (as pessoas devem buscar por si mesmas e coletivamente, em conjunto umas com as outras, as informações e os conhecimentos.

Digo que há nisto um certo “neoiluminismo” ultra-radical, porque os defensores disso, assim como os iluministas, confiam (só que ainda muito mais firmemente que os iluministas originais) em uma melhoria ou mudança para melhor na vida humana, em todo o mundo, e com maior participação de todos nesse sentido, se as pessoas forem mais instruídas e melhor informadas, mais esclarecidas a respeito das coisas. Digo que esse traço dos valores iluministas é assumido com muito maior radicalismo justamente porque é assumido a tal ponto, que seus seguidores parecem perder quase todo o seu perfil de ativistas ou de militantes em defesa de um posicionamento, e a se misturar e confundir com simples prestadores voluntários de serviço público de instrução, educação ou informação.

A presença desse tipo de postura, mesmo entrelaçada a outras coisas inteiramente diferentes, é tão grande e intensificada no mundo hoje (envolvendo muitos e diversificados grupos e movimentos para muito além da Wikipédia), que podemos sim falar facilmente em uma tendência mundial, de perfil até certo ponto neoanárquico, chamada Voluntarismo educacional.

Mas não vou destacar isto como uma mais uma tendência independente talvez não seja muito preciso, porque a penetração desses cognitivismo pela via (que lhe é a mais natural) do voluntarismo educacional é tão grande, que dificilmente deixa de ser detectada em qualquer um dos grupos e movimentos que estou destacando aqui, sem exceção (embora alguns tendam a se ligar mais firme e profundamente a isto do que outros). Parece sempre haver um momento ou aspecto da ação, em todos esses grupos e tendências mencionados neste artigo, em que o Voluntarismo educacional tem o seu papel, seja por uma via mais próxima à do serviço social, aonde isso tende a se misturar com certos traços de um marxismo gramsciano, seja pela via do que se tende a chamar hoje de inclusão digital, no circuito dos aprendizados de informática e tecnologia informacional em geral.

 

A linhagem anarquista mais influente na história do Brasil

Inspirados no filósofo francês Georges Sorel e no italiano Errico Malatesta, os anarco-sindicalistas (ou sindicalistas revolucionários) tendem a defender a noção de greve geral revolucionária. Sorel apresenteava para isso uma fundamentação teórica mais consistente, combinando Proudhon com a dialética de Hegel reinterpretada a partir de Bergson. Mas por outro lado, a fundamentação que oferecia ao anarcossindicalismo era perigosamente próxima de certos valores conservadores — perigo que a certa altura tomou forma real e se materializou, afastando parte da militância sindicalista revolucionária da inspiração anarquista original.

O problema da teoria de Sorel é que tendia a reforçar exageradamente a ideia proudhoniana de força coletiva  pela união em torno de algum mito revolucionário inspirador, e colocá-la acima da ideia proudhoniana de razão coletiva. Para Proudhon as duas coisas tinham que se equilibrar sob a forma do espírito de justiça.

Aos olhos de Sorel (influenciado também pelo pragmatismo de William James), a “razão coletiva”, expressa por Proudhon na noção de equilíbrio que está inscrita na de justiça, era algo secundário em relação à “força coletiva”, e o conceito proudhoniano de justiça era demasiado ético e pouco pragmático, de modo que o mito revolucionário da “justiça” deveria ser suplantado pelo mito revolucionário da “luta de classes” tal como celebrado por Marx, o que promoveria menos “equilíbrio” e mais ação una e potente. Esse favorecimento do conceito marxiano relido pragmaticamente em detrimento do conceito ético proudhoniano teve — como se pode hoje facilmente constatar — consequências desastrosas para o movimento sindicalista revolucionário.

Sorel — famoso por sua obra Reflexões sobre a violência — dedicava-se a fazer a apologia da “impaciência” e da ação revolucionária pela violência, e os militantes dessa corrente soreliana, apesar de teoricamente interessante, na prática sucumbiram a influências conservadoras, por incrível que pareça deixando assumidamente o anarquismo em favor do monarquismo absolutista e assumindo valores até mesmo fascistóides (aliás, não deixou de haver incluência da teoria de Sorel sobre o movimento fascista, de fato).

Com isto, uma parte considerável do sindicalismo revolucionário da época acabou perdendo de vista totalmente os valores anarquistas, chegando a deturpá-los sem pudor e de maneira descarada — razão pela qual os fieis ao anarquismo se deslocaram para a orientação consistente e coerente de Malatesta — que no entanto não tem o mesmo aprofundamento teórico de Sorel, apesar da vantagem de uma prática efetivamente fiel ao anarquismo e livre de distorções manipuladoras anti-anárquicas.

Felizmente, no Brasil, a corrente anarcossindicalista (que está aliás na origem de todo sindicalismo brasileiro) se estabeleceu aqui não com bases sorelianas, mas a partir da imigração italiana e da influência do sindicalismo revolucionário ético de Malatesta. Isto se deu mediante acordos do governo de Don Pedro II (que queria atender às pressões dos senhores de engenho contra a ideia de pagar escravos e ex-escravos trazendo trabalhadores livres de fora), com o governo da Itália, ávido para se livrar da “dor de cabeça” que esses anarquistas representavam por lá.

Mas infelizmente, por outro lado, tratava-se, de todas, da corrente anarquista mais estritamente pragmática e menos aprofundadas na reflexão e fundamentação filosófica de seus posicionamentos.

 

Traços gerais das variações neoanarquistas mundiais hoje

As variações neoanarquistas atuais se desprenderam consideravelmente da estrita atuação junto às classes operárias, embora continuem dialogando intensamente com essa tradição, e desde os movimentos de 68, tendem a ter uma penetração maior nos meios estudantis e no professorado, e atuar de maneira bem menos purista (embora o anarquismo nunca tenha “se fechado” a influência externas em sua atuação prática), mais aberta e muitíssimo mais permeável a alianças com outras formas de ativismo não-partidário à esquerda.

Os neoanarquistas tendem a reforçar e radicalizar ainda mais do que antes dois pontos que sempre foram fortes nessa tendência: a valorização da informação e da educação política crítica e autocrítica, e o respeito pelas diferenças e divergências.

Mas uma de suas principais marcas é que também tendem a valorizar cada vez mais a atuação pela propaganda nos meios de comunicação e de informação, a partir de pequenos grupos ligados por íntimos laços de confiança mútua, e acentuando a originalidade e o elemento criativo e até mesmo artístico em suas manifestações, mas em manifestações carregadas de elevadíssimo potencial crítico e mobilizador, até mesmo chocando (fortemente) as pessoas do ponto de vista moral, com posturas questionadoras em relação ao conservadorismo e à padronização dos modos de vida, a fim de promover reações e reflexão pública — o que reflete provavelmente a absorção de influências situacionistas.

Há também muitos grupos neoanárquicos que ao invés disso, voltam-se mais para si mesmos, e preferem o simples isolamento e o cultivo mais discreto de um modo de vida coletivo totalmente diferente, procurando ampliar seus grupos para pequenos contingentes de público interessado, e partindo para a militância apenas quando confrontados com forças repressoras — há nisto um certo retorno a antigas influências do socialismo utópico do século dezenove, reeditado pela ideia sessentaeoitista de “sociedade alternativa”, influências que podem facilmente acabar deturpando os princípios efetivamente anarquistas.

 

GNU e Movimento Open Source

 

Situacionistas

Situacionistas buscam na arte e e uma vida artisticamente potencializada os meios (e até os próprios fins) da luta contra a alienação midiática e massificadora promovida pela ascensão e do marketing no capitalismo e pela contaminação de toda a cultura por aspectos mercadológicos conectados direta ou indiretamente a isso, que reduzem a vida à participação passiva ou alienada em grandes “espetáculos” midiáticos.

O movimento se iniciou com uma Internacional Situacionista que, a exemplo das Internacionais socialistas, procurou mobilizar internacionalmente não propriamente operários desta vez, mas estudantes  de famílias das classes trabalhadoras e artistas politicamente engajados. A proposta era a criação de situações públicas diferenciadas, capazes de causar forte estranhamento e impacto reflexivo e autocrítico na vida cotidiana urbana.

Há, entre os situacionistas mais radicais, a interessante ideia de uma revolução não apenas por meio da arte, mas cujos objetivos estariam, justamente, em uma vida mais carregada de arte, uma vida até mesmo vivida artisticamente — o que ecoa certas noções sutis mas interessantíssimas e bem pouco exploradas por estudiosos, que estão presentes no pouco que o anarquista Proudhon escreveu sobre arte. A noção de uma ars vivendi — uma arte da vida, um fazer da própria vida uma obra de arte — se encontra acentuadamente presente em textos pouco conhecidos de Vilém Flusser, aspecto provavelmente absorvido por ele em sem prolongado contato com um jovem artista plástico engajado do Brasil, de perfil até certo ponto situacionista, que foi seu assistente durante décadas e que tem a peculiaridade para mim especialmente interessante de ser o meu pai (Gabriel Borba).

Há uma forte penetração do situacionismo no campo do urbanismo politicamente engajado, que procura promover transformações revolucionárias da vida urbana por meio da atuação na reforma dos espaços públicos — mas esta proposta tende a aproximar os situacionistas (por razões evidentes) da atuação política pelas vias partidárias, o que tende ao mesmo tempo a tornar o movimento mais moderado e menos revolucionário na mesma exata medida em que o potencializa por uma atuação menos pontual e provisória, mais consistente e mais ampla.

O maior inspirador intelectual do movimento (e fundador da Internacional Situacionista) foi o estudante de cinema Guy Debord, autor do famoso livro-manifesto A sociedade do espetáculo. Partindo da noção de fetichismo da mercadoria na teoria de Marx, Debord e os situacionistas em geral avaliam que esse elemento fetichista tornou-se (inesperadamente para os marxistas, especialmente os mais ortodoxos) o principal e o dominante elemento-base do capitalismo mundial.

Reinterpretando essa noção de fetichismo da mercadoria, Debord revê a formulação marxiana de que a mercadoria seria um microcosmo das relações capitalistas, e situa nessa condição de microcosmo de tais relações, no mundo atual, o espetáculo direta ou indiretamente midiático. Isto é, a construção e repetição de uma imagem pública alienante para cada setor da vida capitalista, que é dotada de certas características muito específicas, cujo modelo se encontra na dinâmica de funcionamento, junto ao público, dos grandes shows e espetáculos de entretenimento.

Trata-se de uma dinâmica que coloca o público em condição passiva, separado e distanciado do que está apenas “assistindo” e sem ação quanto a isto, e lhe estimula ao mesmo tempo o desejo de agir apenas incorporando-se ao próprio show da vida capitalista a que está assistindo, somando-se ao próprio espetáculo opressor e alienante e explorador como parte desse espetáculo.

Ilustrativa em relação a isto é a cena de um documentário a que assisti e cuja referência não me vem à mente no momento (mais adiante procurarei localizar essa referência e incorporá-la a este artigo como uma nota final).

A cena é a seguinte. Durante a Segunda Guerra mundial, um pequeno vilarejo europeu com uma população quase inteiramente de idosos e mulheres viúvas, está prestes a ser invadido por tropas inimigas (das quais se sabe bem o que esperar: principalmente violência, pilhagem e estupros).

Há um documentarista internacional no vilarejo, acompanhando os acontecimentos com sua câmera. As mulheres e idosos fazem fila, então (muitas vezes com seus filhos e filhas!) à beira de um penhasco, e vão se suicidando todos um a um, sem cena, sem alarde, se atirando no penhasco. A câmera (em preto e branco) focaliza o rosto de uma jovem, nitidamente apavorada, e que nitidamente não quer se atirar, e só está na fila devido à pressão da terrível decisão coletiva. A moça hesita a cada passo da fila, não quer avançar, mas em certo momento… vê a câmera apontada para ela. A câmera faz zoom no seu rosto. Não é preciso dizer nada, a sua expressão facial diz tudo. Sua expressão facial muda. Ela parece de repente movida por uma espécie de “heroísmo” (pois está sendo filmada para ser vista por muitos em sem gesto final). E o que é aquilo, quase imperceptível no canto da boca? Um sorriso forçado, hesitante? Terá a moça pensado em sorrir para a câmera, para “fazer bonito”? Ela então avança, passo por passo, lança um último olhar para a câmera, que de maneira discreta e ainda hesitante, é algo cenicamente entre trágico e heroico… e pula para a morte.

Atenção: a própria descrição da cena (real e chocante) que acabo de fazer acima, é, do ponto de vista crítico do situacionismo, uma descrição esteticamente espetaculosa, que apela para o emocional de modo a procurar dominar o leitor com o “show” trágico de algo terrível e diante do qual estamos absolutamente sem ação, e precisaria ser avaliada com a devida frieza. Mas as duas coisas, a cena e a descrição “espetaculosa” que fiz a cena, são exemplares bem claros do modo como atua domínio do espetacular sobre a vida das pessoas no mundo atual.

A crítica situacionista carrega algo da crítica de Brecht às formas de teatro e encenação artística em geral que procuram “capturar” e “enfeitiçar” o público em uma narrativa de fantasia (ou real, como a da cena acima, mas descrita nos mesmas tintas capazes de gerar um ambiente “mágico” e manipulador de fascínio e ilusão).

Embora já não seja de modo nenhum uma versão do marxismo, o situacionismo apresenta um forte poder de atração sobre marxistas heterodoxos que tendem a valorizar a crítica da alienação mais do que as questões históricas de caráter político-econômico, mais características do pensamento marxiano original e do marxismo ortodoxo. Essa atração fez o situacionismo, de 68 para cá, avançar da militância nos meios estudantis e professorais para um campo em que os marxistas que lutavam principalmente contra a “alienação” política eram dominantes: o campo dos profissionais autônomos e voluntários que atuam em todo o mundo no terceiro setor, por meio principalmente de ONGs junto a populações carentes.

É importante ressaltar, finalmente, que a teoria situacionista não se reduz à de Guy Debord, e foi marcada também por muitos outros excelentes nomes com formulações bastante diferenciadas em próprias em relação à formulação dominante de Debord. Há por exemplo um pensador situacionista da mesma época (movimento de 68) bem mais diretamente ligado jovem militância estudantil de famílias pobres e trabalhadoras, e muito mais acentuadamente marcado pela influência de Nietzsche do que Debord — Raoul Vaneigen (ou Vanheigen, a grafia tem variado nos sites de referência a ele).

Há também um artista plástico cujas reflexões exercem especial atração sobre as minhas: Asger Jorn (que a certa altura rompeu com Debord, que articulou sua expulsão da Internacional Situacionista). Jorn, ligando-se à vertente urbanista do situacionismo, trouxe para a teoria situacionista interessantíssimas contribuições da topologia matemática (que são especificamente o que mais me interessa nele… além de sua produção no campo das artes plásticas, que é ao mesmo tempo belíssima e interessantíssima).

Mas o pensador maior, aquele reconhecido (merecidamente) como o mais profundo e original do situacionismo, permanece sendo Debord.

 

No Brasil: grupos e tendências locais

No Brasil, para falarmos apenas do que parece haver de mais novo e significativo (ao menos pela visualidade na mídia) e que tem atuado na prática como um fenômeno especificamente local, nosso, e não tão integrado a mobilizações internacionais, o que temos é, por exemplo, o movimento Fora do Eixo combina ocupação pacífica de imóveis públicos (às vezes negociada com órgãos oficiais) com o estabelecimento de uma cultura similar à hippie, mas cultivando um certo purismo em que os membros tendem a reduzir suas relações com ambiente externo a atividades de crítica política e de educação popular alternativa oferecida à população.

Também o movimento Passe Livre (que não deixa de apresentar uma forte integração com certas tendências internacionais) tende a construir propostas políticas visando a liberdade, derivadas, no caso da ideia de livre-circulação, mas sem apresentar um perfil efetivamente avesso às vias político-partidárias de atuação. O que o Passe Livre apresenta de mais contemporâneo é sua integração (íntima) com um conjunto de valores e tendências mundiais a que podemos chamar de “neonomadismo”… a tendência a uma vida concentrada no aonde quer que a pessoa esteja, circulando, em percurso para lá e para cá, e não fixada no “aonde” para o qual a pessoa vai o do qual ela sai. A generalização e a importância crescente dos aparelhos celulares segue exatamente esse rumo. O

O Passe Livre é um movimento que acompanha por dentro essa nova tendência, numa conexão disso com seus valores orientadores: o valor da mobilidade, da livre circulação. essa nova tendência mundial, por sua vez, acompanha indiretamente a tendência política mundial de “esquerda” no sentido da defesa da livre circulação de informações. Num mundo em que as pessoas tendem a ser consideradas cada vez mais, acima de tudo, como focos de criação, transformação e redistribuição de informações, a livre circulação (física mesmo) das pessoas, torna-se cada vez mais um ponto de defesa fundamental.

E temos, é claro, o MST, que já é bastante conhecido e despensa comentários… mas todos os três grupos, apesar de atuarem como fenômenos locais, não deixam de ter vinculações com propostas mais amplas de porte internacional.

Embora o Passe Livre seja talvez o grupo mais integrado a novos valores que permeiam internacionalmente a vida no mundo atual, através de suas propostas, e o Fora do Eixo o que é puxado por lideranças mais interessadas em mostrarem suas posições formadas a partir de uma combinação original de influências das novas tendências mundiais, o MST é na verdade o que mais se caracteriza, e bastante claramente, como uma manifestação local, e de cores mais primitivistas, de algo novo no ativismo político mundial: o movimento dos Occupy — como veremos logo mais adiante.

Além desses grupos e de inúmeros outros, em uma perspectiva global e não apenas local, temos também hoje aqueles que — revelando uma nova tendência no ativismo político mundial — já não são mais propriamente grupos, e sim algo propositalmente, cuidadosamente fluido e indefinido, que oscila entre ser “um grupo” e ser apenas uma estratégia de ação que pode ser assumida também por outros grupos (porque não deixa de haver “grupo”, mas o grupo varia incessantemente, e sempre se abre e se oferece a si mesmo como meio de ação para outros grupos, permitindo e até promovendo a agregação provisória desses outros grupos).

 

Tendências que combinam de maneira fluida e aberta
a condição de “grupos” com a condição de meras “estratégias de ação” para qualquer grupo

Temos finalmente este caso novíssimo, o mais complexo e fascinante para análises político-filosóficas, que é o de mobilizações propositalmente de perfil mais difícil de se delinear e de se definir, que oscilam de modo interessantíssimo entre a condição de “grupo” de ativistas e a condição de mera “estratégia” ou “meio” de ação que se oferece livremente a diferentes e variados grupos.

Nesta estranha e diferente linha de atuação, o  o que temos de mais conhecido no mundo hoje?

 

Os Occupy e os Squatters

Os Occupy e Squatters (Ocupadores) estão na linhagem moderna e global, como já mencionado, dos nossos sem-terra: trata-se de protestar através do ato de ocupar espaços dos quais estamos afastados, marginalizados ou excluídos como cidadãos, porque devido a interesses escusos são deixados em desuso pelos poderes públicos ou pelas forças econômicas, ou então acabam sendo reservados apenas a gente política ou economicamente poderosa… ocupar Wall Street, espaço reservado aos representantes do grande capital financeiro, ocupar casas e terrenos públicos que estão em desuso, em protesto contra a falta de trabalho ou moradia, ocupar ruas em protesto contra a o recuo da liberdade para os espaços meramente virtuais na internet etc.

Os Black Blocs

Black Blocs são os que protestam vestidos de preto, com o rosto coberto por panos como no Oriente Médio, ou usando máscaras escuras (geralmente de esqui ou contra gás lacrimogênio) e óculos escuros, projetando uma imagem propositalmente agressiva, destruindo símbolos do capitalismo e dos poderes instituídos e lançando esses atos na mídia.

A proposta básica é de origem anarquista: propaganda pela ação, e (numa linha que já não é necessariamente a anarquista, que tem uma visão mais ampla e diversificada dessa “ação”) os Black Blocs tendem a entender essa “ação” como ação de violência simbólica. Trata-se de reverter o uso da violência contra quem a utiliza na opressão da população.

Assim, manifestando-se contra a noção de violência legítima do Estado e contra a violência capitalista efetiva sobre a vida dos explorados, também legitimada pelo Estado, os Black Blocs tratam de destruir ou demonstrar agressividade destrutiva contra símbolos do poder político e econômico — tijolos atirados contra janelas do Parlamento Inglês por um grupo feminino de Black Blocs, carros de luxo sendo depredados etc…. tudo sempre realizado de modo a destacar como símbolo na mídia a violência revertida.

Trata-se talvez menos de uma propaganda pela ação e mais de uma propaganda para a ação, tentando incitar tomadas de atitude mais agressivas. Apesar do parentesco com propostas anarquistas, frequentemente são movidos pela versão simplificada do conceito de luta de classes, que é a luta de classes tal com compreendida pelos marxistas, ligada à ideia de uma “tarefa histórica” una ou à de uma revolta una, movida pelos mesmos poucos traços que caracterizam carências comuns quanto a necessidades básicas ou (principalmente) quanto a direitos básicos escamoteados e não atendidospelo Estado capitalista.

Trata-se de uma concepção de luta de classes claramente mais afinada com o marxismo, e não compreendida à maneira anarquista, que é mais apegada à valorização do caráter composto das “classes” socioeconômicas, e às divergências e debates internos. Há nos Black Blocs, portanto, apesar das afinidades com o anarquismo, uma forte uma valorização do “igual”, do padronizado, do uniformizado, enfim, da uniformidade nas ações, assim como nas suas vestes, o que mais uma vez sugere, simbolicamente, a proximidade com variações do comunismo.

Trata-se talvez de um certo anarco-comunismo agressivo fortemente marcado pela revolta contra as mazelas urbanas no capitalismo. Mas tais classificações, a bem da verdade, não nos levam muito longe na boa compreensão do fenômeno. O melhor é o exame direto da coisa.

Curiosamente, no sentido inverso do que se costuma julgar, e apesar de ser um movimento motivado por uma revolta muito intensa, não se trata de modo nenhum de uma revolta de perfil emocional ou descontrolado, muitíssimo pelo contrário. As ações dos Black Blocs são ações simbólicas e planejadas, visando gerar certos efeitos na mídia.

 

Esboço de crítica estética à atuação dos Black Blocs

Infelizmente, o mesmo uso de máscaras que protege os Black Blocs contra a repressão policial — já que cometem explicitamente crimes “violentos” contra a propriedade privada e contra patrimônios públicos — permite por outro lado a manipulação em sentido contrário, com falsos “Black Blocs” filmando cenas em conluio com a polícia apenas para justificar repressões mais violentas.

Além disso, as mesmas manifestações violentas de depredação promovidas pelos próprios Black Blocs originais tendem a ser, infelizmente, e com considerável facilidade, apropriadas no discurso das direitas conservadoras como motivação para incentivar repressão agressiva não apenas contra eles, mas contra outras formas de militância ativista “de rua” não necessariamente agressivas.

Em outras palavras, a estratégia dos Black Blocs incorre na limitação arriscada de desarmá-los contra a sua utilização como “inocentes úteis” em favor das próprias forças de repressão. Assim como se torna difícil também, principalmente em países como o Brasil, deixarem de ser atraentes para jovens socialmente marginalizados que, sem qualquer compreensão do caráter simbólico e político das ações, vêem naqueles “uniformes” para a agressão violenta ao patrimônio público e privado, e naquelas ações, um veículo para descarregarem suas frustrações e sua (em geral de fato compreensibilíssima) sanha vingativa, em vista do abandono pelo Estado.

Os movimentos Black Blocs tendem a se aproveitar sem receios e sem ponderação da agregação desses focos de revolta social emocional tendendo ao vandalismo, mas o resultado pode não ser bem o esperado, visto que a fonte dessa agregação, não apenas irracional mas também puramente reativa, não é o real engajamento crítico-político, e sim o descaso do Estado… o que conduz, como solução no horizonte, justamente à valorização de um Estado mais socialmente atuante, e não à critica efetivamente anarquista aos próprios fundamentos hierárquicos e desequilibrados em termos de poder, daquilo que atualmente se compreende como Estado.

Em suma: torna-se difícil, nessa sua via de atuação, os Black Blocs, apesar de sua suposta filiação anarquista lúcida e “radical”, conseguirem se desvencilhar da condição de meros “inocentes úteis” a serviço do próprio Estado repressor — embora não seja um desvencilhamento de todo impossível — …ou até mesmo (o que é ainda pior) a serviço de valores conservadores. Note-se por exemplo a similaridade (simbolicamente relevante sim, e preocupante) com certos grupos da juventude nazista deixada livre e desenfreada a certa altura na Alemanha: “uniformes”, despersonalização e gestos violentos praticados coletivamente com base em uma radical padronização dos manifestantes.

A analogia com algo de perfil nazi-fascista não é puramente estética, e não estou isolado na consideração de que a auto caracterização dos Black Blocs como anarquistas não é a mais ajustada para o que estão fazendo (aqui, como em outras ocasiões, tenho mais uma vez o desprazer, a extrema infelicidade de concordar com posições de uma intelectual com cujos posicionamentos não sinto em geral nenhuma simpatia (pelo contrário, detesto): trata-se de Marilena Chauí — que tende a ver nos Black Blocs algo de perfil bem mais fascista que anarquista.

A chave para a compreensão da autoimagem dos Black Blocs como “anarquistas” está na mítica da violência revolucionária do anarco-sindicalismo, que teve, como vimos, seu flerte em certo momento histórico com a filosofia de Georges Sorel em seu livro reflexões sobre a violência — do qual os seguidores mais tarde acabaram por potencializar os elementos mais fascistóides e menos libertários. Mas a penetração de alguns valores paradoxalmente fascistas em certos meios anarquistas mais desavisados, mais ingênuos e “inocentes” politicamente, e menos consistentes em seu perfil libertário, na verdade tem uma origem ainda anterior à teoria de Sorel.

O próprio Bakunin, considerado o mais inquestionavelmente anarquista dos anarquistas, e que não oferece nada de remotamente associável, com o mínimo se sensatez interpretativa, ao fascismo, cometeu em vida o erro infeliz de, com toda a sua enorme influência na militância anarquista, demorar demais a perceber e desautorizar publicamente as influências (nitidamente) fascistas de um jovem militante supostamente anarquista que era amigo seu — chamado Netchaev — e que foi a mais provável fonte de inspiração da teoria do mito revolucionário de Georges Sorel. Antes que Bakunin se desse conta, o jovem e “impaciente” Nerchaev já estava promovendo (em nome de Bakunin, como se tivesse sido orientado nisto por ele) ações terroristas de assassinato, com bombas lançadas contra pontos de encontro e lazer intelectual em Paris.

Tenho a impressão de que nunca, na história mundial, a simples hesitação afetiva de um intelectual influente, motivada pela complacência para com um amigo, pesou tanto, e tão perniciosamente, nos destinos de um movimento político, quanto a hesitação de Bakunin em desautorizar publicamente as ações de Netchaev. Essas ações, devido às reações públicas que se seguiram em todo o mundo, promoveram um estrago que por muito tempo pareceu quase irreparável e irreversível no desenvolvimento histórico do anarquismo.

Mas não faríamos exercício filosófico decente sem o exercício da autocrítica, de modo que, note-se bem: a analogia que acabo de fazer precisa ser acompanhada, de fato, de forte e consistente autocrítica, que farei, mais uma vez, pela via do exame estético-político: os nazi eram atraentes aos jovens alemães entre outras coisas pela sua elegância e sua estética de pureza e ascetismo, pelo sentido de força e poder que projetavam. E sua violência se dirigia explícita e diretamente contra a vida, mesmo quando o faziam através da depredação de bens.

Os jovens nazi atuavam em defesa de uma desigualdade radical e visando marginalização e exclusão de pessoas (os “diferentes”, judeus, negros, homossexuais, estrangeiros etc.) e não contra a própria desigualdade entre ricos e pobres. Tudo em seus modos de expressão declarava explicitamente isso sem deixar margem a interpretações. Os Black Blocs representam (e procuram simbolizar em suas ações) algo inteiramente diferente.

Se o que põe em risco as estratégias e objetivos dos Black Blocs está ligado a certos traços de sua estética ultrapadronizada, similar à do reacionarismo tecnocrático e autoritário radical (politicamente de ultradireita) dos nazistas, por outro lado o que os “salva” dessa analogia são os demais traços de sua estética, uma estética de revolta ciberpunk, que no mais das vezes procura projetar a imagem do “sujo”, do “poluído”, que não quer a padronização e a uniformização, mas foi reduzido a isso pelo capitalismo, e assume sua condição fazendo emergir sua pura e mecânica reação violenta das profundezas dessa condição a que foram jogados. Esta é a estética, o sentido das simbologias na ação Black Bloc.

A questão é: a militância — ou mesmo a maior parte dela — compreende de fato o sentido dessa estética, que seguramente os mais conscientes e articulados têm em mente?

Vamos mais longe: em especial no Brasil, assim como em outros países de condições sociais e culturais historicamente similares, considerando a nossa historicamente construída propensão a incorporarmos em nós mesmos e repetirmos contra os outros a opressão que sofremos, será que a crítica à padronização forçada pela marginalização no seio do capitalismo não será compreendida, assimilada e difundida, inclusive entre grande parte (senão a maior parte) dos próprios participantes das ações Black Blocs, como se fosse uma valorização dessa padronização e uniformização, digamos assim, como que “para-militar”?

Não se estará promovendo, indiretamente, o aspecto mais autoritário e conservador que pode emergir em uma mobilização ativista nas ruas? Aquele que recusa as alteridades e despreza as divergências e o debate argumentativo? Aquele que massifica e, por isso mesmo, coloca as vontades massificadas em mais fácil condição de manipulação pelo autoritarismo de algupem que decida por elas?

Um amigo filósofo e colega de trabalho (o professor Wanderlei Costa Lima) ofereceu uma dica digna de exame, a respeito. Recentemente, em Zurich (ou Zurique), na Suíça — país de alegada “democracia direta” — fez-se uma interessantíssima manifestação Black Bloc intensa, violenta e de grande porte. Digo interessantíssima, entenda-se bem, por causa da análise filosófico-política que propicia, principalmente por suas suas propostas. É que, a crer no que o amigo Wanderlei me esboçou delas, eu diria que as propostas desses manifestantes, sem que se dêem conta, parecem ser, no fundo… ultraconservadoras! Até mesmo em certo sentido reacionárias, aliás. Estarei enganado? Estaremos mal informados, o Wanderlei e eu?

Segundo meu amigo, o protesto em Zurich parecia ser contra a marginalização dos campos públicos de liberdade de expressão e manifestação política, excluindo-os da rua e dos espaços físicos públicos e empurrando-os para a internet e o campo virtual.

Se for mesmo isto — respondi ao meu Wanderlei — então parece haver uma reação contra as transformações tecnológicas em sua virtualização da vida (o que talvez não seja de todo ruim), mas uma reação voltada para um radical retorno, eu diria que até mesmo romântico, aos meios antigos de organização… algo que soa a uma reação irracional, um novo “mal de século”, uma nova inadaptação, depois daquela que, com a urbanização acelerada do século dezenove, contribuiu para o aparecimento de movimentos revolucionários românticos em busca de um “retorno à natureza”, como o Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto) de Schiller.

Cheguei até a mencionar para o Wanderlei o livro A demolição do homem, de Conrada Lorenz, onde o pensador atenta para o fato de que os seres humanos transformam seu ambiente físico-cultural em ritmo muito mais acelerado do que aquele pelo qual seu corpo tem condições de mudar de geração para geração para acompanhar essas transformações… (ainda temos até hoje o cox, esse inútil resto de rabo dos nossos ancestrais… pensem niss0, lembrem-se disso quando assentarem o traseiro com um pouco de mal jeito em uma cadeira um pouco mais dura!).

O que significa protestar contra o recuo dos campos de manifestação política, dos espaços públicos físicos para a internet? Trata-se de fato de um protesto focalizado em algo que demonstra uma percepção extremamente interessante e inteligente das coisas, inclusive refinadíssima… mas que demonstra também valores reacionários, de reação contra o novo e desejo agressivamente manifesto de retorno a condições do passado!

Fico lembrando de Flusser, com sua crítica extremamente pertinaz e aguda ao apego por vezes excessivo de diversos grupos, no movimento de 68, à noção de um retorno à natureza. É preciso lembrar que recuperar algo de uma natureza perdida paradisíaca (esse tema aliás essencialmente cristão) não implica necessariamente a recusa do novo, e mesmo essa recuperação, se for o caso de defendê-la, pode ser feita por meio de uma reinterpretação e reconstrução melhorada pelos recursos atualmente conquistados, em um salto para a frente — não precisa ser realizada com passos para trás e pontapés direcionados contra qualquer coisa que apareça pela frente…!

 

Os Anônimos (ou Anons)

Os Anonimous (ou Anons) são uma outra coisa. Atuam basicamente por meio do protesto público pacífico e da prestação de serviços gratuitos de consultoria e informação para simpatizantes e interessados para ajudá-los a participarem, utilizam-se assiduamente do humor e da sátira, mas também atuam por meio do hacktivismo agressivo e da intimidação dos poderes políticos e econômicos e das forças repressoras do Estado, numa linha hobbesiana invertida.

Para Hobbes a única coisa que move os indivíduos a se organizarem em sociedade, e a sustentarem o Estado com sua obediência, é o medo e a capacidade de reagir racionalmente a ele — medo da guerra de todos contra todos, e depois de estabelecido o Estado para evitá-la, medo do poder soberano de repressão. Então, todo o medo impingido aos cidadãos por aqueles que os oprimem, controlam e exploram, todo o medo que é impingido pelos poderes políticos e econômicos e suas forças repressoras “oficiais” em favor dessa exploração e opressão, os Anons revertem contra esses poderes e essas forças, utilizando o lema “Nós não perdoamos, nós não esquecemos, nos aguardem”. As bases da intimidação são, de um lado, o próprio poder de ação pacífica e organizada por meio de protestos públicos (na linha do “quem não deve não teme”), e de outro, a ação de hackers no sentido de impedirem ou intimidarem ações repressivas e manipulações ideológicas que atuam no apoio dos poderosos em sua exploração dos cidadãos.

Ainda no caso dos Anons, os hacktivistas são sempre apenas alguns poucos de uma pequena elite por detrás deles, uma elite hacker altamente competente que está constantemente ensinando e formando novos hackers. E suas principais ações consistem no “roubo” e divulgação pública de informações ocultas, secretas ou sigilosas de empresas, órgãos públicos e pessoas poderosas, desmascarando intenções exploradoras e manipuladoras.

Os Anons têm como símbolo uma máscara caricaturizando Guy Fawkes com um sorriso ao mesmo tempo simpático e irônico (Fawkes foi um terrorista anarquista que séculos atrás tentou explodir o Parlamento inglês). Mas ao contrário dos Black Blocs, eles não precisam necessariamente vesti-la,  porque quando atuam com sua presença física na rua, não atuam em atos que possam ser juridicamente classificados como passíveis de condenação — aliás, pelo contrário, frequentemente esses atos públicos presenciais se apoiam na defesa de direitos humanos fundamentais ou tópicos constitucionais não observados relativos a isso, ou ainda no repúdio a manipulações antiéticas ou mesmo inconstitucionais das leis pelos poderes instituídos.

Não obstante os Anons têm sim na máscara de Guy Fawkes (especificamente esta) tanto um símbolo quanto uma proteção quando necessário para evitar ser alvo de repressão e da intimidação de conservadores e dos poderes políticos e econômicos. Precisam da proteção da máscara não para atos violentos (porque seus protestos presenciais procuram evitar isso), mas nos atos de denúncia pública através de vídeos na internet. Os atos mais agressivos, os únicos que na verdade não estariam na maior parte dos países inclusive sob a proteção “oficial” do direito à livre expressão de opiniões (proteção que se sabe perfeitamente ser insuficiente), são os cometidos pela pequena elite de hackers constantemente renovada por detrás dos manifestantes, e são atos de violência (se assim podem ser chamados) apenas na medida em que quebram sigilos agressivamente, e geram preju—ízos econômicos e danos morais aos identificados como ligados às forças exploradoras e manipuladoras.

Tais atividades “mais agressivas” — da pequena, fluida e variável elite hacker que acompanha os Anons no fundo do movimento — são realizadas secretamente por essa elite, e esse pessoal não carece de qualquer “máscara” para isso. Precisam apenas de avatares e nicknames personalizados ou descartáveis na internet.

Entre os Anons, a máscara de Guy Fawkes tem, portanto, uma carga muito mais simbólica do que protetora: e representa não o anonimato em si mesmo, ou alguma despersonalização como no caso dos Black Blocs, e sim a participação em uma ideia coletiva, em símbolo vivo, em algo de nível “espiritual”, ligado a motivações éticas, que representa de certo modo a “justiça”, e que, sendo “simbólico e espiritual” (e coletivizado), com um certo sentido de universalidade, não pode ser contido ou eliminado.

Aliás, façamos uma comparação estético-política com os Black Blocs: o próprio símbolo da máscara de Fawkes, dos Anônimos, que é apenas um instrumento expressivo, poderia ser substituído por outro similar ou aparentado se houvesse necessidade, mas seria preciso reconstruir ou reaproveitar da antiga máscara algo de sua carca simbólica — o que no caso das máscaras usadas por Black Blocs. As dos Black Blocs são máscaras de menor carga simbólica e maior carga de proteção da identidade, e que precisam ser apenas iguais porque sua simbologia está apenas na despersonalização, é uma simbologia negativa (de negação da individualidade), não de transcendência sem perda da individualidade — que é o característico da caricatura de Guy Fawkes como símbolo.

A máscara de Guy Fawkes dos Anons — e não à toa — é a mesma utilizada em um filme famosíssimo por um herói revolucionário fortemente individualizado e personalizadíssimo: “V” de vingança. O filme é baseado em uma quase igualmente famosíssima graphic novel (novela em quadrinhos) de mesmo nome, bem mais extensa, detalhada e politicamente radical que o filme. A graphic novel é baseada em um livro inglês de ficção científica, de literatura engajada contra o regime político conservador de Margareth Tatcher e, tomando esse regime como representação geral de todos os regimes políticos conservadores e autoritários (entendendo-os, basicamente, como todos aqueles em que “governo”). O livro, é… bem mais extenso, detalhado e politicamente radical que a graphic novel.

O livro, por sua vez é baseado em…

Enfim! Assim vão caminhando as coisas. Na simbologia trabalhada pelos Anons, que não se limita a essa máscara, parece haver sempre, também, graus de compreensão e de engajamento, e camadas mais e mais profundas de significação que sempre se pode ir buscando. Os militantes podem parar na superfície da coisa, ou se aprofundar cada vez mais.

Entretanto, os Hacktivistas (que para os Anons estão numa das camadas, digamos assim, “mais profundas” do movimento), e que são inclusive mitificados (o que também significa utilizados) como “heróis” do movimento pelos próprios Anons, que coletivamente tendem a “adotá-los” para esse papel, por outro lado não estão necessariamente ligados aos Anônimos — e constituem eles próprios um movimento político à parte, bem mais consciente, e no entanto (ao contrário do que eles próprios costumam pensar) bem menos significativo do ponto de vista revolucionário do que pode parecer. A grande maioria deles inclusive atua sem qualquer conexão com os Anons.

Os hacktivistas atuam quase sempre individualmente, ou no máximo em grupos pequeniníssimos, de menos de dez. Não se conhecem pessoalmente inclusive, mas se reconhecem mutuamente pelo estilo de hackeagem — porque cada um traz a sua marca estilística pessoal, a sua “assinatura” tecnológica e estratégica nessas ações. Se não existissem e não estivessem tantas vezes ligados aos Anons, isto abalaria a força efetiva do movimento? Seguramente… mas uma vez tendo sido já “disparada” em todo o mundo a máquina simbólica representada pelos Anônimos, não tenho tanta certeza de até que ponto. E novos impulsos de ação hacktivista eficaz sempre tendem a inflamar com mais combustível essa máquina simbólica anárquica de mobilização popular (aliás, tenho a impressão de que o mero boato de ações hacktivistas irreais teria já o poder de continuamente realimentá-la, a esta altura (embora certamente sem a mesma energia).

É interessante notar que a atividade hacktivista real, trabalhosa, cansativa e extenuante, carrega entre seus valores uma extremada valorização do prazer e da diversão envolvidos indiretamente nessa atividade, e que se projeta na fantasia dos Anons como uma grande aventura lúdica no terreno do ativismo político heróico e arriscado (como realmente não deixa de ser). O que se visualiza desse ativismo carregado de riscos é o espírito da diversão que brinca com a própria vida… como a daqueles pixadores adolescentes de família pobre e sofrida que, loucamente, se dependuram nos prédios para, rindo (da morte?), apenas… deixar sua marca na vida!

Como diriam os Anons mais “aprofundados” no espírito do movimento, em coro com os hacktivistas existentes (com toda a sua “vestimenta” imaginária), e os que são imaginários até o fundo:

por lulz!

Afinidades, traços comuns e alianças
entre as tendências da nova linhagem política mundial não-partidária

 

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