Um certo movimento em minhas relações com Aristóteles: a noção de justiça enquanto virtude moral

Rebecca1917versionTenho escrito no Blog Quemdisse umas coisas mais superficiais, a respeito de assuntos como os sons que me incomodam em viagens de ônibus, provocados por outros passageiros (quando por exemplo falam muito alto e sem parar, ou quando ouvem seus aparelhos de som sem fone de ouvido).

De um ponto de vista filosófico, faz algum sentido eu estar pensando nessas coisas? Por que escrever sobre isso?

Porque são coisas conectadas, na verdade, a uma noção de Aristóteles com a qual tenho me envolvido em pensamentos bastante frequentemente: a noção de que as pessoas podem ter um senso de justiça intimamente conectado a todo o conjunto do seu senso de ética.

Um senso de justiça conectado com todo o conjunto de seus valores morais, na verdade fazendo com que suas virtudes sejam efetivamente virtuosas na prática, e não amenas abstratamente, enquanto ideias quanto ao que é ser virtuoso. Um senso de justiça  que pode ser colocado em ação na prática dos relacionamentos diários com outras pessoas, na vida social.

A noção aristotélica à qual estou me referindo é a de que uma pessoa é justa, do ponto de vista ético (isto é, tem o senso de justiça entre suas virtudes), quando dosa seu comportamento em relação a uma outra pessoa em função daquilo que de fato se ajusta àquela pessoa e àquela situação específica de relação com ela.

Destarte exagerar em alguma virtude moral (por exemplo a sinceridade) pode ultrapassar a dose justa para aquela pessoa naquela situação específica, de modo a transformar essa virtude moral (no caso, a sinceridade) em um “vício” moral. Isto é, transformá-la em um comportamento nada virtuoso (em dose excessiva para o que se ajusta ao caso específico em que a aplicamos, a sinceridade por exemplo pode se tornar grosseria).

O mesmo tipo de problema ocorre em relação a dosagens excessivamente baixas para uma situação esécífica em particualr (dosagens portanto também injustas) de uma virtude moral.

Gosto dessa noção de Aristóteles.

Acho-a bem pouco abstrata e bastante apta a se integrar de à nossa a vida prática diária, em sua concretude. E é  uma noção que faz pensar em algo como uma química das dosagens morais de nossos comportamentos, inclusive aproximando-se, interessantemente, do que eu chamaria de uma estética da ação. Pois quando trata a justiça deste modo, Aristóteles está falando também de uma questão de elegância.

Entretanto, diante de certas questões referentes ao que os estudos de Sérgio Buarque de Holanda (em Raízes do Brasil) sugerem quanto às possibilidades de uma sociabilidade efetivamente democrática no Brasil, essa noção de aristóteles passa a ser, aos meus olhos, por um lado de enorme importância, e por outro, um alvo de necessário questionamento, quando se trata de comportamentos que exprimem posicionamentos em um debate democrático. 

Holanda nos adverte de que há uma alta dose de passionalidade enraizada fundo na cultura brasileira e nos caracterizando mesmo enquanto brasileiros, como uma marca característica e fundamental do que somos. e nos adverte também — não sem nos deixar algum traço de esperança, embora não esclareça bem em quê se focaliza essa esperança — que segundo o modo weberiano, alemão, e em geral europeu e em certa medida até mundial de pensar, a democracia está fundada no predomínio da lei, e da contenção de cada cidadão no que está em conformidade com a lei. E acontece que tal contenção não é nada fácil para um povo tão marcado pela passionalidade.

Ocorre que minha interpretação da esperança insinuada por Holanda é a de que ela está na construção de um novo sentido de democracia, de uma democracia a quente, passional, fundada mais no debate do que na pura e seca normatividade. Entretanto, se não não vamos apostar na contenção legal das pessoas, precisamos pensar em outra via para nos liberdarmos do pequeno tiranete hobbesiano que parece existir no coraão de cada brasileiro, em vista do modo como tende a se comportar em relação aos demais, na livre expressão dessa sua passionalidade natural.

Aristóteles me parece oferecer nesse sentido uma perspectiva interessante com sua noção da justiça enquanto virtude moral… mas não sem uma certa revisão do conceito, porque se a autocontenção aprendida pela via da educação moral (e eu acrescentaria estética) já é em termos democráticos bem melhor que a simples imposição do cumprimento de normas, por outro lado nem toda contenção (mesmo pela via da educação moral) é sempre necessariamente o que há de democraticamente melhor, se estamos pretendendo algo como uma democracia mais passional e abrasileirada (em brasas, eu diria).

Futuramente escreverei algo a respeito — são pensamentos que já estão em andamento na minha cabeça há algum tempo.

Prometo.

 

 

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