Um sonho com cursos de inglês e culinária

Hoje tive um sonho interessante.

Sonhei que minha mulher e eu chegávamos a um grande local de cursos e eventos, como um SESC gigantesco, e eu estava animado, mas não havia como animá-la, ela mal me escutava e não parecia interessada em nada. Entrei sozinho a procura de algum curso para “temperar a vida”.

Achei um curso gratuito de inglês. Meu inglês está fraco, meio esquecido. Me ocorreu viajar, voar (feito uma bolha?) para lugares diferentes do mundo, conhecer outras vidas… peguei uma senha para o curso, entrei por um corredor, “primeira porta à direita”, me disseram… parecia um desses largos corredores com portas para salas de cinema numeradas em que a gente avança com um tíquete na mão.
Entrei na tal porta indicada. Pelo menos pensei que fosse a certa. Era um imenso auditório com fileiras cada vez mais altas de cadeiras até lá no fundo, cadeiras como num cinema, mas cadeiras com braços de apoio que se curvavam para a frente servindo de mesa, como numa sala de aula.

A aula já havia começado, e com algo estranho, porque o professor, um senhor magro e alto com as laterais dos cabelos desgrenhadas e olhar severo, tinha sotaque italiano, e parecia estar falando sobre química. Sentei-me num lugar lá no alto, do meio para o fundo do auditório, e alguém (tão rapidamente que nem vi a pessoa) colocou diante de mim, no braço-mesa da poltrona, um aparelho que era como um microscópio. Mas o microscópio se transformou em um rolo com manivela lateral, suspenso por duas hastes uma de cada lado.
E nesse rolo, estava enrolada uma camada grossa, de uns dois dedos de espessura, de alguma substância muito densa, que parecia uma borracha branca e áspera, e que parecia ter alguma maciez.

O professor foi perguntando a vários alunos o que era aquilo. Ninguém sabia. Alguém arriscou: “massa de pizza?”.  Aí lembrei de um programa de TV q a Paula e eu costumamos assistir, e entendi: estava num curso de culinária. Minha mulher e eu costumamos assistir o Master Chef.

Ela assiste muitos e muitos desses programas que parecem documentários e ficam mostrando uma variação enfeitada ou dramaticamente piorada de faces da vida… gente viciada em acumular lixo, casas com invasões de insetos, cuidados com gatos, cuidados com cães, gente aprendendo a se vestir melhor, gente escolhendo casa para comprar, reformar e morar, etc., etc., etc. Isto me entedia e vou para outro quarto assistir a filmes com boa dose de fantasia. Quando assisto meus filmes fantasiosos, ela em geral também se entedia e vai fazer outra coisa. Mas há alguns um tanto raros que curtimos juntos, e no caso desses em clima de documentário, o último q tem me animado a ver com ela é o Master Chef, q sempre pego pela metade chegando do trabalho.

Pois bem, estava num curso que lembrava o Master Chef, e tínhamos tarefas a realizar para não sermos excluídos do curso. Só alguns iam ganhar o “prêmio” do curso com o sujeito, que parecia ser famoso mundialmente.

Mas ele não queria só saber de cozinha. Queria saber de atitude. Pediu que desenrolássemos a massa na mesa (era de um tipo de lasanha super grossa, não de pizza).. Pediu que olhássemos, sentíssemos o cheiro, apalpássemos, cutucássemos com o dedo, sentíssemos a textura… e então, pediu para fazermos alguma coisa, qualquer coisa, que tivéssemos alguma reação física, não importa se louca, desde que exprimisse, desde que manifestasse, com a nossa expressão corporal, o que sentíamos ao experimentarmos entrar em contato com aquela massa.
Materialidade! Era o que eu sentia. E era delicioso!

Que se lixasse a “seleção” de quem fica no curso. Aquela sensação de materialidade para mim já era o que valia o curso todo, não precisava de mais nada!

Um sujeito, num assento um pouco abaixo de mim e mais à esquerda, se levandou com os braços para o alto e começou a se chacoalhar todo, olhando para o alto, tive vontade de rir: parecia coisa de Igreja daquelas do tipo “sai satanáz”! Mas experimentei me levantar também e começar a chacoalhar o corpo… só que me senti dançando meio doidamente, de olhos fechados, e meus braços desceram para a frente e para baixo.

Abri os olhos no meio da chacoalhação, e vi que abaixo de mim e bem à minha frente, todas as poltronas estavam vazias até lá perto do professor, sem nada nem ninguém, e estavam com os braços-mesas de algum modo recolhidos. Aí notei que todas as poltronas vazia do auditório, incluindo aquelas à minha frente até lá embaixo, estavam também reclinadas para atrás, tanto que dava para alguém quase se dormir nelas. aí a sensação de “gostoso” curiosamente aumentou, e me deixei desabar: dei uma cambalhota para a poltrona da frente, e sem pausa nenhuma, outra cambalhota para a poltrona seguinte, e outra, e outra, e fui girando, girando (feito uma bolha) e cambalhotando cada vez mais rapidamente pelas poltronas abaixo, até desabar deliciosamente, com os braços e pernas estendidos e com um vasto sorriso no rosto, na última poltrona da frente, quase que logo adiante do professor. O mundo estava girando, e era gostoso. As pessoas na sala estavam rindo, o professor apenas sorria para mim, com um cachimbo enfiado no sorriso. E foi só isso. Aí acordei.

Esse foi o sonho.

A interpretação pra mim é (quase toda) evidente, por vias das quais não vou falar, porque são íntimas. Posso dizer apenas o que talvez seja o mais importante de um ponto de vista que aponta em direção filosófica: se refere uma batalha interior. Minha batalha interior de superação de minhas bolhas de fantasia. Bolhas que me seduzem para o imaterial (a morte).

Trata-se de superar essas bolhas e essa sedução mórbida rumo a uma imersão, um mergulho, na minha materialidade carnal e sensorial rocambolesca, que é a do próprio rocambole da vida. Mas um mergulho sem perda de fantasia: pelo contrário, um mergulho no prazer rocambolesco das vivências sensoriais, justamente a fim de tornar a fantasia mais viva, intensa, lúdica, prazerosa, multifacetada e vibrante… e mais livre.

O sonho se refere a esta luta minha pelo mergulho.

Entretanto é um mergulho claramente impossível, porque é de dentro das bolhas da fantasia que mergulhamos, e só sentimos o mergulho através delas, porque sem elas, não estamos vivos.

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