Vírus fantásticos e a CPI onde habitam

Meu acompanhamento da CPI

Inauguro aqui minhas interações intelectuais com os eventos que vêm se desenrolando na assim-chamada CPI da Covid. Confesso que poucas vezes estive tão interessado por uma CPI, pois (sem de modo algum diminuir a importância das demais) me parece que há desta vez muito mais coisa em jogo do que de outras vezes.

Neste meu artigo de inauguração pretendo algo bem pouco pretencioso: pretendo, sem deixar de colocar claramente meu posicionamento pessoal, também informar. O leitor compreenda então que poderá sim colher muita informação sobre o que vem ocorrendo na CPI aqui, mas que essa informação não será oferecida com completa neutralidade.

Há um único ponto com relação ao qual reivindico de fato total, completa e absoluta neutralidade política no texto que se segue: é a questão da caracterização da ciência tal como se apresenta de fato, na realidade, no mundo. Quanto a isto não há nada — rigorosamente nada — de posicionamento político de minha parte.

Venho trabalhando esse assunto (o que é e como se estrutura no mundo a ciência) há muito mais de uma década (talvez mais de duas) em sala de aula, como professor. Procurei sempre oferecer aos alunos a visão mais clara e correta da coisa que me parecia possível, no limite de minhas capacidades — chegando a delinear inclusive com bastante cuidado e clareza diferenças entre ciências exatas, ciências naturais e ciências humanas, e diferenças entre filosofia, ciências e religião, assim como diferenças entre opinião e tese teórica.

E o fiz ainda sempre com o cuidado de apontar certos pontos específicos, as pequenas regiões de cruzamento em que essas diferentes formas de cultivo da mente ou do espírito ou se confundem, ou se apoiam mutuamente, ou entram em conflito, ou traçam uma espécie de caminho em paralelo umas com as outras, em que podem coexistir sem interferência mútua. Tudo citando exemplos e com o acompanhamento de uma apostila básica bastante extensa redigida por mim — projeto de um futuro livro.

Então, repito, quanto à caracterização da ciência real, como ela efetivamente é, não há qualquer contaminação política de minha parte e menos ainda de qualquer tema político do momento atual, visto que já trabalhava no assunto deste mesmo modo muito mais de dez anos atrás.

Entretanto, como se verá, este é — e não poderia deixar de ser — um assunto central no presente texto, precisamente por ser um texto sobre a atual CPI.

Em casa acompanhamos mais ou menos diariamente esta CPI da Covid pela Globo News. Pretendo a partir de agora ampliar minha via de acesso a informações a respeito. Alguém pode alegar que a Globo, em cujo jornalismo me apoio até o momento, não se dá bem com Bolsonaro e é tendenciosa. Mas eles realizam sim um trabalho muito cuidadoso de análise dos acontecimentos políticos, muito bem feito, e o melhor é que seu acompanhamento da CPI nos coloca as seções ao vivo em todos os seus momentos mais decisivos, mostrando todas as falas, as dos governistas de um lado e de outro as dos que responsabilizam o governo pelo desastre na saúde pública.

Ademais, eu sou declarada e assumidamente tendencioso e anti-bolsonaro já desde antes de sua eleição, independentemente de qualquer influência midiática ou mesmo de conhecidos meus — posição que no entanto sempre estive aberto para mudar se me fosse provado que minha avaliação era errônea… mas que na prática só foi se confirmando e aprofundado cada vez mais (e continua mais e mais), a tal ponto que atualmente mal suporto ver a cara ou ouvir a voz desse sujeito em qualquer mídia.

Eu resumiria as coisas, na CPI, do seguinte modo

Existe essa região (ou “recorte” da realidade) comum a todos no Brasil, chamada pandemia. E existem duas regiões políticas conectadas a ela: de um lado a do governo federal sob Bolsonaro e de outro a da ciência médica e farmacológica. (Neste artigo falarei em “regiões”, para passar melhor a ideia de campos de ação pelos quais se pode transitar, embora eu prefira “recortes”.)

Transitando por essas três regiões — e tentando alterá-las e alterar as relações entre elas — existem dois agentes examinadores coletivos: de um lado o grupo crescente dos que querem avançar a CPI responsabilizando o governo federal pelo desastre no trato da pandemia, que é formado por opositores do governo e por políticos independentes, e de outro lado o grupo dos governistas, que querem proteger o governo federal de ser responsabilizado nesse avanço da CPI.

Na região da Ciência, os governistas criaram uma sub-região: a de uma imagem da ciência a ser passada para o público, que não corresponde de fato à realidade da ciência tal como se apresenta no mundo, e que se caracteriza inclusive num sentido contrário ao da ciência.

Digo contrário ao da ciência porque é uma imagem que procura mostrá-la, basicamente, como uma questão de opinião num campo de múltiplas divergências, podendo cada um acatar livremente a posição que bem entender — quando a ciência pelo contrário se caracteriza precisamente pela neutralidade e distanciamento em relação a juízos de valor (e portanto ao “livre-posicionamento”), e pela existência de toda uma estrutura institucional em nível mundial que, para obter essa neutralidade e distanciamento, visa padronizar em todo o planeta as metodologias a serem seguidas e teorias a serem consideradas válidas e de qualidade.

Trata-se de um combate da ciência àquilo que entre os lógicos às vezes se chama se chama de “afirmações triviais”, que não trazem informação nova porque são tratadas como igualmente válidas mesmo sendo contraditórias — ou um combate ao que em linguagem popular seria um “vale-tudo” em que, como resultado, acabamos não tendo nada de valor.

Como se posiciona e se mobiliza o grupo
dos oposicionistas e de seus aliados independentes?

O grupo dos oposicionistas e independentes assume como ponto de partida a região da pandemia, e se mobiliza fazendo vir à tona sua dimensão e sua gravidade. A região “pandemia”, por sua vez, os afeta provocando neles choques de efetivo desespero e revolta, e ocasionalmente (como ocorre a quase todos os políticos, de todas as matizes político-partidárias) a necessidade de fazer algum drama com a tragédia para atrair a simpatia de seus eleitores, coisa que se vê mais em alguns deles do que em outros.

Esse grupo dos opositores e independentes se estende da região Pandemia simultaneamente para as outras duas regiões: a região Governo Bolsonaro, na qual entram em posição de ataque, e a região Ciência, na qual entram na posição de defensores.

Na região Governo Bolsonaro lutam para provar a responsabilidade desse governo pelo desastre na região Pandemia, ou seja, para provar que a interação do Governo Bolsonaro com a região Pandemia tem provocado a condição desastrosa em que esta região se encontra. A resistência da região Governo Bolsonaro às provas é fraca, fraquíssima, e esse governo tem se revelado de fato, cada vez mais, responsável pelo desastre na pandemia.

Como se posiciona e se mobiliza o grupo dos governistas?

O outro grupo de agentes examinadores, o dos governistas, parece partir claramente da região Governo Bolsonaro, tentando fortalecer a resistência da mesma contra a ação responsabilizadora o primeiro grupo. Para isso o grupo governista adota como principal estratégia “embolar o meio de campo”, tornar os trabalhos da CPI mais lentos, dispersos e inócuos, por diversos meios, inclusive procurando irritar os do outro grupo e fazê-los perderem o foco. E ocasionalmente também tiram proveito do que podem para fazer algum draminha que atraia a simpatia dos seus eleitores.

Nesse esforço de alongar os trabalhos da CPI tirando o foco de atenção do governo federal, os governistas tentaram colocar algo de importância, e tremendamente demorado, na frente do exame da responsabilidade do governo federal: o exame da responsabilidade de governadores e prefeitos, incluindo o de possíveis casos de corrupção.

Por uma questão de imparcialidade, os oposicionistas e independentes não tiveram saída senão aceitar o exame de todos esses casos, mas procuram se organizar e organizar a agenda da CPI de modo a não deixar que isso jogue para “depois” o exame da responsabilidade do governo federal.

O que resultou da exigência dos governistas de que os governadores fossem convocados para depor?

Dessa exigência dos governistas (de que os governadores fossem convocados para a CPI) surgiu uma colocação inesperada e polêmica dos opositores e independentes: está na Constituição Federal que os titulares do poder executivo não podem ser chamados a depor numa CPI, porque seria colocar o poder executivo abaixo do legislativo, violando o princípio de equilíbrio dos poderes… isso quer dizer que chamar os governadores abre um precedente novo, e então não há razão para que esse precedente não valha também para o presidente da república, que então poderia ser igualmente chamado a depor.

Ora, tudo o que os governistas menos querem é que esse orador e raciocinador incompetente e dominado por impulsividade descontrolada e perigosa, que é o presidente da república, venha depor. Deporia contra si próprio sem dúvida nenhuma.

A colocação polêmica foi feita pelo senador Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI, e a bem da verdade só é polêmica pela reverência que se costuma ter ao cargo mais alto do poder executivo, que é a presidência da República.

O presidente Bolsonaro fez então um tolo ataque verbal homofóbico dirigido ao senador (decerto por algum preconceito em relação à voz de Randolfe, que não é lá muito grave, principalmente quando se exalta). Pretendendo ofender o senador, ofendeu na verdade o público homossexual, como se fosse uma ofensa ser chamado de homossexual — o que pegou muito mal. Como resultado de sua colocação polêmica e da reação presidencial, Randolfe caiu nas graças da mídia (que não está nem aí para a grossura ou finura de sua voz), e se tornou uma figura pública notória.

Cá entre nós, Randolfe merece a atenção da mídia: seu trabalho na CPI é de muita dedicação e inteligência. Outros também o merecem, e eu destacaria, em especial, o senador Alessandro Vieira… em casa, quando chega a vez das perguntas de Vieira na CPI, corremos para o sofá para assistir, porque não dá pra perder, é um inquiridor excelente.

Onde os vírus do fantástico entram em ação

A estratégia de “embolar o meio de campo” dos governistas não se limitou à exigência da convocação de governadores para deporem. Utilizaram-se também de uma estratégia tão tremendamente ignorante (ou talvez descaradamente manipuladora) que beira o bizarro: estenderam-se para a região Ciência procurando alterá-la de modo a ajustá-la aos posicionamentos do governo Bolsonaro.

A estratégia apenas replica aquela do próprio governo, e é ignorante ou manipuladora (ou mais provavelmente ambas as coisas ao mesmo tempo)…

  1. porque ignora que a região Ciência oferece resistência absoluta ao seu tratamento como se seus procedimentos e resultados fossem objeto de livre opinião dependente da posição política do opinante, e
  2. porque esse tratamento só pode ser conseguido superficialmente e ilusoriamente, manipulando apenas a percepção de uma população quase toda ignorante acerca das questões científicas — como infelizmente é o caso da nossa.

A estratégia em questão consiste basicamente em entrar na região Ciência tentando alterar-lhe a aparência, ou em outras palavras, consiste em tentar produzir uma percepção alterada da Ciência médico-farmacêutica, uma imagem falsa. A ideia básica desses governistas por detrás dessa estratégia de superfície é a de pôr em prática uma estratégia mais profunda: jogar junto ao público eleitor com a noção de que o ultra-autoritário presidente Bolsonaro seria algum tipo de defensor das liberdades (imagem que aliás ele tenta construir de si mesmo, descolando drasticamente sua imagem para o público de suas ações reais em relação à Democracia e às instituições democráticas).

A estratégia procura passar a (falsa) imagem de que os médicos seriam cientistas independentes e totalmente livres para decidirem caso a caso se a cloroquina (defendida pelo Governo Bolsonaro) serve para curar a Covid ou não, e passar também a imagem (falsíssima) de que as instituições dedicadas ao estudo do tratamento da Covid teriam todas igual liberdade para decidirem também a respeito, o que seria o caso do próprio ministério da saúde e do governo federal que o chefia.

Os vírus do fantástico II – A missão

Os discursos dos governistas em relação a isto (ao uso da cloroquina no tratamento para Covid) variam de intensidade na defesa da coisa, ora apenas procurando aliviar a carga de absurdo da indicação desse remédio, para tornar isso mais aceitável, ora fazendo a escancarada e descarada defesa do remédio.

Alguns atuam como verdadeiros “Rambos” com metralhadoras nas mãos. Metralhadoras que cospem absurdos às vezes surpreendentemente infantis (me lembro de um filme que vi na infância: “Bugsi Malone: Quando as metralhadoras cospem“), mas estes da CPI não são atores tão graciosos… e infelizmente, no caso o público é que não tem em geral uma percepção muito madura das coisas da ciência neste país, o que o deixa vulnerável.

Assistimos ao caso de um senador governista que aparece fazendo suas perguntas sempre online, e que chegou a mostrar caixinhas de cloroquina e invermectina dizendo conhecer quem tomou esses remédios (se me lembro bem inclusive ele próprio, coisa de que duvido), numa afrontosa propaganda dos mesmos para o público, mas tratando-os como “possibilidades a não serem deixadas de lado” ou algo assim…

…E há o sempre reincidente caso de um “tiozinho abduzido”, como costumamos chamá-lo aqui em casa, a quem o senador Omar Aziz (presidente da CPI) a certa altura alertou: “O senhor está com um delay multo alto”, porque o tiozinho estava querendo discutir coisas que já haviam sido resolvidas fazia tempo.

(Aqui em casa chamamos de “absuzidos” principalmente velhinhos que ficaram desesperados com as medidas de isolamento e se transformaram subitamente em bolsonaristas… mas usamos essa terminologia com alguma elasticidade, de modo a servir também para o “tiozinho da cloroquina” na CPI, que parece ter sido sempre da linha dos cloroquentos).

Ciência e pseudociência (ou ideia falsa do que é científico)

Vieram à CPI duas supostas “cientistas” bolsonaristas que parece serem defensoras do uso de cloroquina no tratamento para Covid: Mayra Pinheiro e Nise Yamaguchi. Os governistas procuraram se apoiar nelas para passarem a imagem de uma ciência “dividida”, com membros respeitáveis como as duas defendendo o que foi defendido pelo governo federal.

A ciência entretanto não funciona assim. Não é simplesmente “dividida” em posições que se pode “escolher”. Há como argumentar neste sentido quanto à filosofia, mas quanto às ciências médica e farmacológica, de jeito nenhum. Nas ciências da natureza há sempre uma teoria geral dominante, e mesmo quem acredita numa teoria divergente deve se curvar a ela enquanto for a mais consistentemente e seguramente demonstrada (voltarei a isto ainda neste texto).

Acontece que a teoria geral dominante no mundo quanto ao modo de lidar com pandemias de vírus, e em particular com a Covid, está longe de ser a defendida por essas duas supostas “cientistas”, mas nenhuma delas se curva como deveria às evidências que demonstram a segurança maior da teoria dominante no mundo.

De quem os governistas queriam alterar a percepção? Dos que estão no outro grupo da CPI, os oposicionistas e independentes? Certamente que não. Queriam manipular a percepção do público a respeito da ciência… a percepção do público eleitor. Para quê? Para tentar gerar uma pressão externa, pública, contrária à continuidade da CPI da Covid ou ao seu direcionamento para a responsabilização do governo federal. Tratava-se de se aproveitar da ignorância da população a respeito para conseguir isso.

Contudo, aqui em casa passamos a acreditar que, no caso específico do “tiozinho da cloroquina”, estávamos diante de uma autêntica ingnorância quase fanática por parte do próprio senador (pobre coitado!). Será que estamos certos? Ou apenas sendo ingênuos?

Quanto ao depoimento de Mayra Pinheiro

No primeiro desses dois depoimentos de… “cientistas”…, o de Mayra Pinheiro, estava em jogo, bem mais do que diretamente o uso da cloroquina, era a questão envolvendo um aplicativo do ministério da saúde para ajudar as pessoas a verificarem se tinham sintomas de Covid… e para indicar já de saída alguns medicamentos comprovadamente ineficazes e até com efeitos colaterais perigosos, como a cloroquina.

Pelo que entendi, a situação, resumidamente, era a seguinte: o governo federal lançou esse aplicativo; um jornalista utilizou meios ilegais para verificar o funcionamento do aplicativo, e verificou que ele indicava tais medicamentos de maneira quase aleatória quaisquer que fossem os sintomas. O aplicativo foi então tirado do ar e o jornalista processado por fazer isso por meios ilegais.

O ex-ministro da saúde Pazuello, depondo na CPI, deu a entender que o aplicativo havia sido hackeado e por isso indicava tais medicamentos, e a questão então era por que o aplicativo não foi corrigido e aberto de novo ao acesso público. Pois bem: o depoimento de Mayra Pinheiro derrubou o argumento do hackeamento, porque ela chegou a fazer a defesa sincera (eu diria louca) da cloroquina e desses medicamentos.

Para os governistas importava muito mais desviar desse assunto do aplicativo, e transformar o depoimento de Mayra Pinheiro num palco para exposição e propaganda da “ciência divergente” que diziam que ela representava como se fosse uma questão perfeitamente válida de livre posicionamento no campo científico.

O resultado dos depoimentos somados
de Mayra Pinheiro e Nise Yamaguchi

A primeira das duas “cientistas”, então, (Mayra Pinheiro) mostrou-se fervorosa, a segunda (Nise Yamaguchi) falou com voz firme e segura, ao menos até certa altura. Ambas cheias de dados e informações. Os dados e informações de ambas, entretanto (e principalmente no caso da segunda), assim como o fervor de uma e a firmeza e segurança de outra, foram desmantelados de cima abaixo pelo interrogatório, que revelou o quanto estavam longe de ter todo o conhecimento e toda a competência no assunto que alegavam.

(Os governistas alegam, reclamando, que as perguntas dos opositores teriam sido feitas de modo a direcionar as duas para respostas já pré-concebidas.)

Os maiores responsáveis por essa derrubada dos argumentos das duas, assim como de Pazuello antes delas, em nossa avaliação aqui em casa, foram Alessandro Vieira, como sempre, com suas perguntas firmes, frias e precisas, embasadas em pesquisa, que não dão espaço a tergiversações, e principalmente o senador Otto Alencar, que é médico e um médico muito consistente em seus conhecimentos na área.

Em sua derrubada das afirmações de Nise Yamaguchi, infelizmente, Otto Alencar chegou a exaltar-se de indignação e revolta, quando teria um efeito muito mais sólido (porque menos questionável pelos adversários) sem isto. Se me lembro bem, uma assessora da doutora Nise Yamaguchi parece ter chegado a perder a cabeça, tentando agredir o senador. Por outro lado, mesmo tendo se exaltado, o senador foi muito firme e consistente, e conseguiu se conter o suficiente para não tratar a médica em nenhum momento com desrespeito verbal.

O resultado parecia favorável para os oposicionistas e independentes. Mas questionavelmente, porque a imagem passada para o público poderia ser ainda a de uma divisão na ciência: de um lado médicos como Otto Alencar, outros que são senadores pelo PT e da área médica, e uma senhora, também médica, que sempre faz suas perguntas online (não lembro os nomes dos três); de outro lado as duas “cientistas” cloroquentas, Mayra Pinheiro e Nise Yamaguchi e os simpatizantes delas e de suas posições.

O objetivo dos governistas de passar essa ideia de “divisão” na ciência talvez ainda estivesse tendo algum sucesso junto ao público eleitor.

A mulher-maravilha chega num pulo de alta quilometragem

Crescia o problema de que a CPI virasse um grande palco de divulgação da cloroquina, da invermectina e de outros medicamentos ineficazes e de uso perigoso, pois a emergência de divisões e divergências no campo científico, aos olhos do público desinformado, favorecia esse intento dos governistas.

Então veio a mulher-maravilha. Seu nome: Luana Araújo. Conseguiram trazer à CPI para depor uma cientista de verdade, inclusive garota-prodígio desde a juventude na área. Totalmente focada nas questões científicas, sem se deixar levar por provocações quanto a posicionamentos políticos. A mulher deu um baile nos governistas e lançou por terra toda a imagem desmiolada e manipuladora da ciência passada por eles, e colocou, com ainda maior profundidade, precisão e detalhamento e com exemplos práticos e muita didática, aquilo que sempre coloquei para meus alunos em minhas aulas de filosofia ao falar sobre ciência — aulas que proferia muitos anos antes da existência do atual governo e da atual circunstância política e médica.

Resumindo a meu modo o que o laço da verdade revela

Existe uma comunidade científica internacional. Essa comunidade segue padrões metodológicos que variam de área para área, mas que têm algumas bases comuns a todas as ciências. Esses padrões metodológicos determinam a validade de uma teoria como “científica” e determinam também os critérios de avaliação de qualidade, para sabermos o que é “boa” ciência e o que é “má” ciência.

Há instituições no mundo que atingiram excelência na prática de tais métodos, e que se tornaram referência para as demais evoluírem nessa direção. Essas instituições de referência internacional é que, nas áreas médica e farmacêutica, dão o embasamento para todas as outras quanto ao que são resultados aceitáveis ou não do ponto de vista científico e quanto ao que são resultados “melhores” ou “piores”, por exemplo quando falamos dos resultados de um tratamento ou uma medicação para uma determinada doença.

Há portanto um vastíssimo consenso mundial a respeito entre os pesquisadores científicos, e os que fogem a esse consenso, os que não concordam com ele, se forem pesquisadores sérios, mesmo assim o seguem na prática enquanto não conseguirem comprovar o contrário com os mesmos métodos internacionalmente reconhecidos e praticados com excelência nas instituições que são referência mundial. Isso porque é preciso seguir o que há de mais sólido e seguro e de menos questionável considerando tudo o que há de disponível nas práticas científicas mundiais. Quem não o faz, não está fazendo ciência séria e de qualidade.

Quer dizer que não existem teorias divergentes em ciência? Elas não são possíveis?

Existem sim, são possíveis. Apenas não podem ser consideradas de maneira nenhuma tão fortes ou consistentes quanto o que está no consenso geral, baseado nas instituições de excelência e em suas metodologias.

Na verdade tenho a acrescentar um detalhe: todas as ciências têm esse funcionamento, e existe inclusive um nome técnico para esse consenso generalizado: chama-se “teoria standard” ou “teoria-padrão”. Outras teorias podem existir tentando contradizê-la, mas não são consideradas “verdade científica” enquanto não conseguirem substituir a teoria standard ou de algum modo a englobarem, ou serem englobadas nela. No caso das ciências médicas e farmacológicas este é um ponto especialmente importante: é NECESSÁRIO seguir a teoria standard ou padrão, mesmo no caso de não concordar com ela, porque é a mais segura disponível, e vidas dependem disso.

Todas essas coisas foram colocadas pela doutora Luana Araújo, como já disse, com mestria, riqueza de detalhes, didática claríssima, argumentação impecável, exemplos concretos e um domínio de conhecimentos na área a toda prova, inquestionável.

Essa mulher, respondendo brilhantemente mesmo quando pressionada pelos governistas em sentido contrário, arrastou no chão do ridículo as pressões deles sem nenhuma preocupação com política, sendo pura e simplesmente científica — e médica, porque preocupada com a didática para o entendimento claro da população quanto à necessidade da vacina e do isolamento social, e para o entendimento do porquê disto. Ela conseguiu firmar definitivamente o que os opositores e independentes vinham tentando com alguma dificuldade apesar dos pequenos sucessos sucessivos: a volta para o foco da CPI, que é a investigação das responsabilidades pela pandemia.

Revelações do laço da verdade
que espremeu os governistas

Se os governistas vinham tentando fazer da CPI um palco de divulgação de alguma “linha divergente” supostamente válida da ciência seguida pelo governo, penetrando na região Ciência para alterar a percepção pública dela, iludindo uma população em sua maioria ignorante do funcionamento da ciência, a fim de conseguir pressões externas sobre a CPI — o resultado do depoimento de Luana Araújo foi o de uma série de bombas muito bem colocadas nos pilares dessa construção ilusória promovida por eles.

É o que sempre venho dizendo em sala de aula, há mais de dez anos. Ciência não é uma questão de opinião ou livre-posicionamento, mas uma questão de método, e no caso das ciências médica e farmacológica, não compreender isso põe vidas em risco. Também não é questão de um simples ter método. Não se trata de ter qualquer método.

(Existe um Filósofo da ciência que defende num livro que a ciência abandone todo método e entre no vale-tudo das livres opiniões, falo do anarquista epistemológico Paul K. Feyerabend no livro “Contra o método“. Entretanto é um filósofo e não um cientista, e a simples existência de alguém defendendo que a ciência venha a ser assim no futuro, já implica que ela não é assim no presente. Além disso, o próprio Feyerabend não pode ser entendido a partir apenas desse seu livro, e estudado com o devido cuidado e a fundo, com este livro devidamente situado no contexto de sua obra, o que ele revela estar dizendo é coisa bem diferente desse puro e simples “vale-tudo”.)

O fato é que há nas ciências da natureza uma estrutura internacional de avaliação dos métodos, de sua boa prática e de sustentação das teorias resultantes, e essa estrutura mantém uma teoria-padrão que precisa ser seguida. As teorias divergentes, para se fazerem valer, precisam se ajustar a ela ou conseguir substituí-la nessa posição de teoria padrão. Mas a consideração dos métodos e dos cuidados em sua prática serve para a qualificação e avaliação das teorias nessa direção, para sabermos as chances e possibilidades que uma teoria tem ou não de ser validada, e o grau de qualidade das pesquisas que levam a ela. Mesmo o partidário de uma teoria divergente tem a obrigação de seguir a teoria padrão enquanto não conseguir provar a validade e a qualidade da sua.

Nessa estruturação das ciências médico-farmacológicas, se as instituições de pesquisa de excelência internacionalmente reconhecida estão no topo e são referência para as demais, os médicos individualmente considerados estão na ponta oposta da cadeia hierárquica. Toda a liberdade deles está submetida ao que essa estrutura determina como conhecimentos mais seguros. O bom médico é o que pratica sua liberdade de decisão nos tratamentos dentro dos limites dessas referências. O que não faz isso é o mau médico, e pode inclusive, dependendo da situação, incorrer em caso punível por órgãos responsáveis pela preservação da ética médica.

A ciência, além de apresentar essa estrutura de organização no mundo, a apresenta por uma razão específica: é para preservar justamente a neutralidade e o distanciamento em relação a juízos de valor. Toda essa estrutura é organizada precisamente para isto. Ou seja, para evitar que a ciência se transforme numa mera questão de opinião e de disperse em posicionamentos divergentes de igual força.

Isto está, digamos assim no próprio DNA da ciência, e é por essa razão que o intento dos governistas estava fadado ao fracasso. Fazer da suposta “divisão” dos cientistas um fato, vai contra os próprios fatos, é como querer descrever a ciência atribuindo a ela o que nega a própria existência da ciência.

O único sucesso possível nesse intento de firmar uma imagem da ciência como questão de pura opini!ao, estaria em manipular a opinião pública — possibilidade apoiada na ignorância das multidões no Brasil acerca do funcionamento efetivo das coisas na ciência. Essa possibilidade ficou abalada pelos questionamentos de Otto Alencar, ainda que ele estivesse um pouco exaltado pela indignação e pela revolta, e foi definitivamente derrubada, ou quase, pelo depoimento da mulher-maravilha.

É de se prever, não obstante, que alguns malucos, como o “tiozinho da cloroquina” (o abduzido), continuem martelando na mesma tecla. (Ele está neste mesmo momento, na tela de minha TV enquanto escrevo este artigo, tentando desmoralizar o depoimento de Luana Araújo. Ele sempre coloca com muita seriedade dados informativos, invariavelmente desmentidos na mesma sessão ou nas sessões seguintes). Minto, na verdade é de se prever que todos os governistas agora voltem à carga tentando… opa, é o que estou começando a assistir agora mesmo. Eu ia dizer tentando desqualificar Otto Alencar e Luana Araújo.

Esboço rápido de um mapeamento
para o que foi dito neste texto

Vou colocar aqui um rápido esboço de diagrama desse conjunto de relatos que fiz:

Acrescento também um índice de itens (uma legenda) para esclarecer melhor o diagrama:

As setas em azul indicam que um agente se estendeu de uma região (ou recorte) do diagrama para outra, colocando uma outra instância sua lá a fim de interagir com essa outra região. Há sempre interações entre regiões interligadas, e também entre os agentes e as regiões em que estão. Mas ressaltei no diagrama apenas as interações que pareciam mais relevantes em vista do que quis destacar no texto, e dessas interações, que são a rigor de mão dupla (logo adiante, no próximo parágrafo, esclarecerei que são inclusive mais do que isso), destaquei apenas as ações que pareciam mais relevantes também segundo o texto que redigi.

Queria mostrar esse procedimento de mapeamento, mesmo que aqui apenas esboçado rapidamente sem muito cuidado. Em meu modo de raciocinar, todas as interações (as relevantes foram indicadas com setas verdes e roxas) devem ser consideradas a princípio não apenas como de mão dupla, mas como relações interpretáveis como dialéticas — cabendo acompanhar o seu desenrolar e ir tentando prever qual o tipo de dialética em jogo, se é por exemplo uma dialética antinômica sem síntese, ou com síntese, e como essa “síntese” deve ser interpretada para se ajustar melhor ao que se observa em desenvolvimento ali (um equilíbrio? Uma composição?).

Uma interação dialética

Podemos — e de fato têm sido formuladas pela filosofia — diferentes interpretações da “dialética”. (O livro “Dialética e Sociologia“, de Georges Gurvitch, é um dos muitos que expõem essa diversidade de interpretações. O pesquisador Manfredo A. de Oliveira, no livro “Dialética hoje: lógica, metafísica e historicidade“, é outro a expor diferentes concepções ou interpretações da dialética — e chega a falar de uma “crise” da dialética promovida pelo excesso de divergências quanto ao assunto.

Meu esforço pessoal, no sentido de contribuir para a superação dessa “crise”, está na localização de um padrão mínimo de interação presente em todas as concepções ou interpretações da dialética que me parece possível formular, e na aceitação de toda e qualquer interpretação ou concepção que acolha esse mínimo, inclusive de múltiplas variações ocorrendo conjuntamente no mesmo contexto examinado. É o que chamo de dialética multivariante — mas não é o assunto aqui, estou me desviando e perdendo o foco. Voltemos.

Falei em múltiplas variações igualmente possíveis de dialética, muitos tipos de dialética que podem se apresentar em uma situação examinada (ou mapeada).

O anarquista Proudhon, por exemplo, fala de uma dialética que, num de seus aspectos, se aplica à relação entre o pensamento e a ação, ou mais precisamente entre a ideia que se faz da realidade e a realidade prática tal como é e tal como vai resistindo às nossas ideias.

As ideias vão se apoderando da realidade e substituindo-a com falsificações que vão adquirindo peso de realidade paralela… (em linguagem proudhoniana, elas vão se “absolutizando”) mas ao mesmo tempo e pelo mesmo processo, essas mesmas ideias vão corroendo seus próprios fundamentos, que estão na realidade primeira e original (porque ideias não passam de mapeamentos da realidade), assim, quanto mais se absolutiza e se “empodera” como que substituindo a realidade, mais a ideia se aproxima de seu colapso autoproduzido, caindo por falta de fundamento no real.

Para Proudhon, isto ocorre sempre, temos uma humana tendência patológica para a absolutização de nossas ideias. Mas uns são progressistas, lutam contra a ação do absolutismo em si mesmos e no seu contexto. Outros são absolutistas, apegam-se, agarram-se a essas ideias como carrapatos, sobrepondo-as à realidade e ignorando-a, até despencarem com elas quando perdem o fundamento.

Esse me parece ser o tipo de dialética nas relações entre as ideias (absolutizantes) dos governistas sobre a ciência e a realidade em si da ciência. (Interação J-K, feita de duas ações de sentido oposto, representadas no extremo direito do diagrama.)

É bastante significativo aliás que os governistas apelem sempre para algo como uma “liberdade” estritamente individual (do médico de receitar o que bem entender mesmo que o paciente venha a morrer, do paciente de fazer o que quiser quanto à pandemia, mesmo que ponha a vida de outros em risco etc.), e que mesmo tempo procurem estimular e manipular comportamentos de massa, massificados.

Segundo Proudhon, uma ideia absolutizada é uma ideia simplificada, em quanto mais absolutizada for, mais irão perdendo força e relevância os seus componentes internos e as suas relações com o contexto, tornando-se ela uma unidade em relação à qual só é possível posicionar-se em “bloco”, sem ponderação de prós e contras. O absolutismo, ainda segundo Proudhon, tem como característica intrínseca o apego à unidade em detrimento da relação, e até à “liberdade simples” (do indivíduo ou de um todo coletivo) em detrimento da liberdade “composta” (de uma coletividade complexa e plural, que não se impõe aos seus subgrupos e indivíduos).

Se estou correto e é este o tipo de dialética em jogo entre a ideia (ou mapeamento mental) que os governistas fazem da ciência (Ci-1 no diagrama) e a realidade da ciência em si (Ci-2 no diagrama), então podemos prever o aprofundamento cada vez maior do abismo entre essa ideia e seus fundamentos na realidade, no mesmo movimento em que essa ideia irá se recrudescendo e se tornando mais intensa e agressiva entre os seus “crentes”, até que por fim perderá por completo os fundamentos no real e desabará totalmente, levando-os junto com ela.

Por que falar em agentes “examinadores”?

Se digo que governistas de um lado e de outro oposicionistas e independentes são agentes “examinadores”, é porque me parece que eles próprios examinam a situação toda da CPI mapeando-a, mentalmente, aproximadamente assim como o fiz aqui (claro, se pensarmos a situação num esboço muito rápido e simplificado, quando na verdade é bem mais complexa). Estou fazendo uma simplificação.

O correto é considerar-me também como agente examinador num nível superior e inserir-me no diagrama (ou mapa mental) acima, já que fui eu quem fez o mapeamento desse diagrama simplificado, e apenas supus como agentes essas duas coletividades de senadores, como se pudesse captar mais ou menos o modo como pensam o estratégico campo de ação que têm diante de si. Mas julguei desnecessário me acrescentar ao diagrama porque acho que deixei bastante claro, no percurso do texto, que me posiciono do mesmo modo como suponho que se posicionam os oposicionistas e independentes.

Um outro ponto a observar é que os senadores que preferem ser classificados como “independentes” existem na verdade dos dois lados. Peço desculpas se pareço pouco respeitoso ao me esquecer disso. Mas o fato é que os “independentes” que atuam junto aos governistas me parecem bastante dependentes do ponto de vista governista, muito mais do que os independentes “do outro lado”, de modo que, sem intenção de ofender a ninguém, preferi de fato colocar as coisas assim.

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